10 junho, 2015

Conto - Um Fio de Esperança - Raquel Machado

Olá pessoal!

A escritora Raquel Machado, parceira aqui do blog, foi chamada para participar da "oficina literária" sobre "literatura fantástica" este mês de junho.
Essa oficina é ministrada pela "Ana Julia Poletto" e o primeiro "tema" foi escrever um conto com o tema: "E se o seu maior medo virasse realidade?"
Então ela escreveu o conto "Um Fio de Esperança".
E eu tenho que dizer para vocês que está ótimo! Tem algumas partes um pouco nojentas e outras que nos dão um certo arrepio também.

Abaixo está o conto para que vocês possam ler, mas se preferirem, no final do post, está o conto em vídeo, e já adianto que a trilha sonora está perfeita!
Confiram!

Um Fio de Esperança


Acordo com as batidas incessantes na porta. É noite ou dia? Não que isso tenha relevância.
Levanto de mau grado e arrasto-me até a entrada da pequena casa. Abro a porta pronta para xingar quem quer que seja, porém nada consigo ver. Uma rajada de vento me atinge, o que me faz sentir um calafrio repentino, a chuva se aproxima.

Decido procurar alguma coisa para comer. Entro em casa e abro os armários, porém eles estão vazios. Tão vazios como minha própria alma. Ao fundo avisto um pacote de bolacha, que vai servir.

Sento na mesa e vejo um inseto correndo sobre ela. Não é exatamente uma barata nem tampouco um besouro, parece algo dos dois. Bicho nojento. Mato-o sem dó.

Abro o pacote de bolacha e vou mordê-la, quando vejo o mesmo bicho. Este parece encarar-me nos olhos. Fico hipnotizada por aquele pequeno ser de oito patas. Engulo a bolacha junto com o bicho que me atormenta. Porém, a náusea me atinge.


Vou até o banheiro e vejo meu reflexo no espelho. Eu ainda sou a garota mais bonita do mundo. Começo a escovar meus cabelos, porém percebo que eles estão caindo em grandes tufos, uma praga da doença que me aflige.


Ligo a torneira e, ao lavar minhas mãos, percebo algo estranho. Pedaços de pele começam a se desprender. Minha linda pele clara não existe mais, em seu lugar vejo somente os músculos do ser imperfeito que eu sou.


Grito desesperada. As luzes se apagam e um silêncio preenche o ambiente. Tento aguçar minha audição, e escuto meu próprio grito, que parece ecoar pela casa. 


Corro para sala tentando me esconder, porém sinto meus pés pesados. O tapete da sala parece areia movediça. Arrasto-me com dificuldade até um canto e sento. Tinha escutado histórias sobre pessoas com doenças terminais. Elas costumavam ver e ouvir coisas, então talvez seja tudo parte de minha imaginação.


Acordo dos meus pensamentos ao sentir pingos de chuva caírem sobre minha cabeça. Maldita casa, terrível, urbana. Sinto que a água não é límpida, mas sim vermelha, e sua consistência é diferente, parece sangue. O sangue de todos que maltratei.


Corro para a porta, mas não consigo encontrá-la. Estou trancada a mercê dos mortos que vêm me buscar, cobrando por meus pecados. O sangue sobe pelos meus pés, ao mesmo tempo, que escuto o choro das almas sofredoras.


É o meu fim. Sinto-me afogar, o ar saindo dos pulmões. Já coberta por aquela corrente sanguínea, abro os olhos e vejo uma criança. Instintivamente a reconheço, aqueles olhos da época em que minha inocência era pura. Ela estende sua mão e tento com muito esforço pegá-la, mas já não tenho forças. Nos entreolhamos e, por um instante, sinto que ainda existe esperança. Sem mais pestanejar, acabo sucumbindo.


Acordo sobressaltada com um barulho incessante na porta. A chuva cai incessantemente do lado de fora. Olho para o criado-mudo onde estão os vários remédios que fazem parte de minha vida. Maldito sonho. 


Caminho até a porta de mau grado. Abro e não vejo ninguém, escuto apenas o barulho do vento que sussurra:


- Ainda há tempo.




Para conferir o conto no Wattpad clique aqui

Não deixem de comentar ;)
Beijos
Dri

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